segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

848- ARTIGO DE DAVID BORENSZTAJN

JUDEUS NO XADREZ!

David Borensztajn

Não, não são judeus presos, trancafiados, são judeus que jogam e jogaram xadrez, fazendo uma diferença naquilo que é chamado de “o jogo dos reis”, talvez o mais fascinante e intelectual jogo já criado pelo homem, pois não há o fator sorte (a não ser um erro do adversário), não há diferença de idade nem de compleição física, que influencie os parceiros.

Na história do xadrez, muitos judeus influenciaram toda a concepção da estratégia desse jogo que atrai milhões de pessoas no mundo todo há séculos.

Aquele que eu considero o maior de todos os tempos, por exemplo, Garry KASPAROV, nasceu de pai judeu e seu sobrenome era Weinstein, tendo adotado Kasparov por causa de sua mãe, Klara Kasparova. Hoje, retirado da arena dos torneios, mantém uma academia de xadrez em Israel e em outros lugares do planeta. Atualmente está lançando livro após livro sobre seus predecessores e sobre seus grandes embates, especialmente contra Karpov.

Mas, voltando no tempo, tivemos outros grandes expoentes judeus, como Aron NIMZOWITSCH que na década de 20 do século passado foi um dos que revolucionaram o jogo, com suas idéias a respeito do controle do centro, algo fundamental para os jogadores, e a primeira lição que se tem.

A tragédia da vida de Akiba RUBINSTEIN, que apesar de talvez ser tão forte quanto o campeão mundial da época, Alekhine (antissemita notório e segundo alguns admirador dos nazistas), jamais conseguiu disputar o título por falta de patrocínio. Ele morreu na pobreza e quase abandonado. Foi um mestre no chamado jogo posicional e até hoje suas partidas são um modelo imprescindível para quem quer melhorar o seu jogo.

Não se pode falar em campeão de xadrez judeu sem se mencionar Emamuel LASKER, que por 27 anos (1894-1921) foi o melhor do mundo. Amigo íntimo de Einstein com quem trocou correspondências, LASKER se interessava por outros assuntos como matemática, biologia e especialmente filosofia.

Já na época da supremacia dos jogadores soviéticos, Mikhail BOTVINNIK, foi o criador da chamada escola soviética de xadrez mantendo o título mundial por muitos anos até ser suplantado por outro judeu, o letão Mikhail TAL, famoso por seus sacrifícios espetaculares. TAL não conseguiu ficar mais de um ano com o cetro de campeão, em razão de problemas de saúde que o perseguiram até sua morte. Mas mesmo BOTVINNIK quase acabou derrotado num emocinante embate com outro judeu, David BRONSTEIN, em que um erro primário na partida final e que garantiu a manutenção do cetro a BOTVINNIK, deu origem a teorias de conspiração, pois BOTVINNIK era enfant gaté do sistema soviético.

Ainda na era BOTVINNIK, grande teóricos como Isaac BOLESLAVSKY e Igor BONDAREVSKY, contribuíram enormemente para o desenvolvimento de algumas defesas, e desempenharam papel fundamental para certas linhas de jogo que até hoje são empregadas. Nessa mesma época Samuel RESHEVSKY, dos Estados Unidos (nascido na Polônia), era o grande nome do cenário enxadrístico até a era FISCHER.

O genial Robert James FISCHER (Bobby Fischer), que faleceu em circunstâncias dramáticas e praticamente no anonimato, e que chegou a se exilar fora dos Estados Unidos, onde nasceu em razão do fisco, igualmente era judeu, pois sua mãe, Regina Fischer, era uma típica iídiche mame. Foi ele quem enfrentou os maiores da sua época e era considerado um problema sério para o sistema soviético que usava o xadrez como propaganda. Foi campeão mundial derrotando na Islândia, no match mais badalado dos nossos tempos, o soviético (hoje cidadão francês) Spassky, que não esconde seu desprezo e ódio aos judeus. FISCHER, porém, recusou-se a defender o título três anos depois, sendo aí sucedido por Karpov, “queridinho” do Partido Comunista Soviético. Na época de FISCHER outro grande jogador judeu, que morreu prematuramente e que esteve no Brasil na década de 60, foi Leonid STEIN, cujo estilo brilhante marcou época e apontado como possível campeão mundial.

Nos dias de hoje, Boris GELFAND, nascido na Bielorússia e que reside em Israel foi o vencedor da última Copa do Mundo (não é o torneio que aponta o campeão mundial, mas tem quase o mesmo significado). Já considerado velho no meio enxadrístico (tem quase 40 anos), continua a ser um dos mais fortes jogadores do mundo. Foi, além disso, um dos preparadores do grande KASPAROV na disputa entre este e KARPOV.

Com a dissolução da URSS muitos judeus emigraram para Israel que, assim, se tornou potência enxadrística. Acaba de ocupar a terceira colocação nas Olimpíadas (realizadas periodicamente), feito fantástico para um país com tão pequena população. Outros foram para os Estados Unidos, onde o cenário do jogo é completamente diferente do europeu, como Eduard GUFELD (a quem conheci pessoalmente num torneio no Havaí há anos atrás.

O xadrez, por incrível que possa parecer, requer estudo diário e preparação física, o que foi introduzido por BOTVINNIK que caminhava muito todos os dias, além de praticar natação. Hoje, entre a elite dos grandes mestres não há quem não se prepare fisicamente, pois uma partida, que dura geralmente muitas horas, é algo extremamente cansativo.

No meu tempo de juventude, no Rio de Janeiro, os clubes judeus tinham seções de xadrez sempre com muita gente jogando e disputando torneios. A ASA e a Hebraica foram destaques naqueles tempos.

Mas recentemente em São Paulo despontou um jovem grande mestre, um dos poucos do Brasil, vindo da Hebraica Paulista, de nome André DIAMANT, que acaba de integrar a equipe olímpica do Brasil. Ele se notabilizou por enfrentar o próprio KASPAROV numa exibição simultânea, tendo sido notícia na mídia e de ter obtido a medalha de ouro numa Macabíada, em Israel. E uma particularidade: usa kipá durante as partidas...

Algumas prefeituras e governos estaduais estão contratando jogadores mais experientes em programas que visam ensinar o jogo, que, como se sabe, exercita o raciocínio, a memória e a visão rápida, com a tomada da decisão de qual jogada será a melhor em determinadas posições, ou seja, um reflexo da própria vida.

Não poderia encerrar este artigo sem mencionar o fenômeno da família húngara POLGAR, que criou três filhas que se destacaram no universo do jogo, em especial Judith POLGAR que chegou a ser das 10 melhores jogadoras do mundo, mesmo entre os homens (no xadrez os torneios em geral são separados pelo sexo, a não ser em torneios abertos). Uma das suas irmãs, Susan, foi campeã mundial feminina e hoje mantém tal qual KASPAROV, uma academia nos EUA. A experiência dos pais POLGAR é motivo de estudo por parte de psicólogos, já que criaram as filhas especificamente para serem campeãs de xadrez, tendo conseguido. As meninas não iam à escola, estudavam as matérias do currículo com professores particulares em casa e aprendiam a jogar; falam várias línguas e vivem uma vida absolutamente normal. Será que se pode preparar alguém para ser campeão mundial de xadrez? Uma pergunta cuja resposta ainda está em aberto.

Com o advento da Internet milhões de partidas são disputadas via computador com adversários do mundo todo, e há inúmeros sites disponíveis para tanto, como, por exemplo, o Internet Chess Club, onde qualquer um pode jogar com parceiros à sua altura. A Internet se tornou um veículo fundamental para o xadrez e até se podem ver grandes torneios ao vivo, muitas vezes com imagens, pela rede.

Goethe disse que o xadrez era a “ginástica da inteligência”. Será que o iídiche kop funciona mesmo?

ARTIGO PUBLICADO NA REVISTA MENORAH

Notas de Maiakowsky:

1-Macabíadas são jogos realizados entre as comunidades judaicas do mundo todo e o Xadrez é uma das modalidades. Em geral só os jovens participam.

2- A expressão no final do texto, iídiche kop, está em idiche, língua falada pelo autor do artigo e compreendida por judeus da sua geração. Quer dizer "cabeça judaica".

David Borensztajn, além de ótimo enxadrista ("grandcapi" é seu nick no ICC!), é procurador de justiça aposentado do Estado do Rio de Janeiro. Ele estudou propedêutica no Colégio Freudiano, cursou pós-graduação latu sensu em Poder Civil e Poder Militar nas Faculdades Bennet e dedica-se a questões envolvendo antissemitismo e islamismo. Borensztajn escreve para a revista “Menorah”.

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